Quando Joãosinho Trinta afirmava que o desfile das escolas de samba era uma “ópera de rua”, ele não falava apenas de plumas e paetês. Falava de drama, de conflito, de redenção, de pecado e de glória. Falava de povo. E, sobretudo, de energia — essa força invisível que transforma miséria em metáfora e dor em enredo.
A Acadêmicos de Niterói levou à Marquês de Sapucaí, em 2026, a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva. Começou com a mãe nordestina, sustentáculo de cinco filhos no agreste. A fome. A vulnerabilidade. A migração. O torneiro mecânico. O sindicalista. O criador de partido. O presidente eleito três vezes pelo voto popular.
Uma narrativa clássica de ascensão — quase bíblica.
Mas foi uma ala específica que incendiou as redes: religião, militarismo e segmentos conservadores representados em latas de conserva.
E pronto. A ópera virou tribunal.
Carnaval não é culto. É espelho. O desfile não é catecismo, nem quartel, nem púlpito. É arte. E arte provoca. Às vezes exagera. Às vezes ironiza. Às vezes dói.
A lata de conserva é uma metáfora poderosa. Conserva aquilo que foi fechado. Preserva o que não circula. Impede o ar. O que a escola quis dizer? Que parte da sociedade se fechou? Que há dogmas que impedem o diálogo? Ou que o poder instrumentaliza a fé e a farda?
O incômodo é sintoma de que a mensagem atingiu algo sensível.
O desfile começou com uma família faminta, mas unida. E talvez essa seja a maior provocação.
A família brasileira mudou. Mais de metade dos lares é chefiada por mulheres. Divórcios crescem. A natalidade cai. A pirâmide etária se inverte. O modelo tradicional resiste — mas já não é exclusivo.
A pergunta não é se a família acabou. A pergunta é: que família queremos fortalecer?
Uma que acolhe?
Ou uma que exclui?
Uma que educa para o diálogo?
Ou uma que teme o contraditório?
A crítica à religião enlatada é, antes de tudo, um convite à reflexão.
O Evangelho não nasceu para ser instrumento de poder temporal. A cruz não é palanque. A fé que se fecha em si mesma perde a essência.
Vozes como a de Caio Fábio insistem numa espiritualidade centrada no amor, não na dominação cultural. O problema não é a fé — é o uso político da fé.
Quando religião vira projeto de poder, deixa de ser caminho de transformação e passa a ser mecanismo de controle.
E isso vale para qualquer credo.
O Brasil sempre cultivou respeito pelas Forças Armadas. Disciplina, hierarquia e compromisso com a soberania são valores estruturantes.
Mas instituições não são imunes a desvios. Quando altas patentes se envolvem em episódios antidemocráticos, a crítica não é ataque à instituição — é defesa da sua legitimidade histórica.
Militarismo não pode ser ideologia partidária. Deve ser serviço à Nação.
Se a lata incomoda, talvez seja hora de perguntar: estamos preservando valores ou isolando-os do debate democrático?
A República nos apresenta a alegoria da caverna. Pessoas que confundem sombras com realidade. O Carnaval, ao contrário, joga luz. Exagera para revelar. Amplifica para questionar.
A lata de conserva é uma nova caverna?
Ou é apenas uma caricatura incômoda?
A arte não tem obrigação de ser confortável. Tem obrigação de ser potente.
Entre o conservadorismo e a hipocrisia
Aqui eu preciso falar em primeira pessoa.
Fui militar. Aprendi o valor da hierarquia, da disciplina e do compromisso com a Nação. Sei o peso da farda e o simbolismo que ela carrega.
Sou pastor evangélico. Vivo a fé não como instrumento de poder, mas como chamado ao serviço, ao amor e à responsabilidade espiritual. A cruz, para mim, nunca foi palanque — é entrega.
Estive à frente da Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Conheci por dentro a potência transformadora da arte, sua capacidade de incluir, provocar e gerar desenvolvimento. Cultura não é ornamento: é política pública, é identidade, é economia criativa, é cidadania.
Durante cinco anos abriguei em minha casa o genial Joãosinho Trinta. Com ele aprendi que o Carnaval é mais do que espetáculo — é narrativa social, é ópera popular, é pedagogia estética. Inauguramos o Instituto Joãosinho Trinta e realizamos projetos socioculturais que se tornaram difusores da economia criativa, formando pessoas, despertando talentos e gerando oportunidades.
Por isso, quando falo em conservadorismo, falo com propriedade — e com responsabilidade.
O verdadeiro conservadorismo que defendo não é o da hipocrisia moral, nem o do discurso inflamado que prega amor enquanto pratica exclusão. Não é o conservadorismo que teme a arte, que demoniza o pensamento crítico ou que transforma fé e pátria em slogans de conveniência.
Conservar, para mim, é preservar valores essenciais — família, fé, respeito às instituições — sem perder a capacidade de autocrítica e de diálogo. É sustentar princípios sem fechar-se numa “lata de conserva” onde tudo o que diverge vira ameaça.
Eu acredito na família, mas não numa família idealizada e retórica — acredito na família real, que luta, que se reinventa, que precisa de apoio concreto.
Eu acredito na fé cristã, mas numa fé que acolhe e transforma, não que exclui e domina.
Eu respeito as Forças Armadas, mas entendo que honra institucional exige responsabilidade histórica e compromisso democrático.
Se a arte provoca, não me escandalizo. Reflito.
Se o Carnaval questiona, não me fecho. Escuto.
Porque aprendi com Joãosinho que a alegria é força revolucionária — e com o Evangelho que a verdade não teme debate.
Entre o conservadorismo e a hipocrisia, eu escolho a coerência.
E ainda bem que o futebol ficou de fora
Porque se tivesse entrado em campo, talvez o debate fosse ainda mais irracional.
O Carnaval passa.
As notas vêm.
A campeã será anunciada.
Mas o verdadeiro julgamento não é o dos jurados.
É o da consciência coletiva.
A pergunta final não é se a escola exagerou.
É se nós estamos preparados para sair da lata
*Colaborou: José Ricardo Marques

